Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.
31 Dezembro, 9h, raios de sol reflectem-se na imensidão de mar que circunda a ilha. No porto oito gigantescos návios desembarcam milhares de formigas que consomem todo o espaço circundante. Lá no fundo, tento percorrer a rua, que dista apenas 10 m do mar. Uso os meus pequenos milimetros da tradicional calçada portuguesa para chegar a um destino onde quero que o meu corpo esteja. Sou embebido pelo cheiro a bolo do caco logo pela manha quentinho, pelo cheiro a tangerina e pelo cheiro a terra que ainda chora o execesso de àgua com que foi bombardeada. A brisa do mar juntamente com um raio de sol são os restantes ingridientes para a receita perfeita.
Adorava que o meu corpo viaja-se a velocidade da minha mente. Nesta sou bombardeado por pensamentos, sentimentos, emoções facilmente interrompidas por um " Com licença, excuse me, con permiso, excuse-moi, Entschuldigung, scusami, etc." Enfim, é o preço da globalidade...
Estamos no final de mais um ano. Aliás, parece que foi ontem que me sentei para escrever a mensagem de final de ano de 2008. A sensação é de que as coisas acontecem e passam cada vez mais depressa... Por cada cm que percorro na calçada corresponde a uma viagem intergalâctica na minha mente. Relembro 2009 com nostálgia. Ano repleto de aventuras, encontros, desencontros, emoções ganhas, outras perdidas. Questiono-me como tudo passou e eu nem me apercebi do verdadeiro significado das coisas?
Na verdade, não é o tempo que passa mais rápido. O envolvimento com a rotina corrida é que, muitas vezes, ofusca a nossa infinita capacidade de apreciar aquilo que temos de bom nas nossas vidas. O dia a dia nos coloca em situações de competição, intolerância, busca de mais dinheiro e poder, enfim... O verdadeiro significado da nossa existência passa a ter cada vez menos valor.
Neste preciso momento minhã mãe está a assistir ao fogo em Sidney e eu questiono-me como esta mudança radical pude acontecer? Que melhor prova para me aperceber que actualmente nossas famílias, amigos e colegas ficam muitas vezes esquecidos. Quando somos bombardeados com este tipo de sentimentos, não é nada mais do que o reflexo para a maioria das pessoas de uma sensação de perda, de impotência, de descumprimento; pois mal acordamos e já vem a cobrança pelo que deixamos de cumprir, fazer ou exigir. É uma rotina que escraviza o corpo e aprisiona a mente, impedindo-nos de celebrar a vida e comemorar um minuto sequer...
Estava para aqui a pensar se hoje visto smoking ou fato, se uso a gravata vermelha com a camisa branca ou se uso a camisa preta com a gravata branca... Que melhor forma para ficar elegante, quando lá no fundo é deselegante ter um corpo preenchido e uma mente vazia...
Por isso, espero que estas festas de final de ano sejam realmente especiais, mas especiais por provocar reflexões sobre as nossas vidas: O que posso fazer para dar mais valor à essência humana e assim ser mais feliz? Sinto que tenho de acreditar sempre! Porque a confiança é o caminho certo para um ano novo de muito sucesso. Vou me limitar a namorar a vida, provar a heroina do amor, traçar objectivos, sonhar novos sonhos, fazer novos amigos, fazer algo que nunca fiz e arriscar.
Um feliz 2010 e acima de tudo, nunca se esqueçam de quem são...

